quarta-feira, 16 de maio de 2012

terça-feira, 15 de maio de 2012

Os bancos e o bode na sala

Conta a lenda árabe que um homem não aguentava mais a mulher reclamando das reduzidas dimensões da casa em que a família vivia e procurou conselhos de um mulá sobre como proceder. O líder religioso disse que as reclamações da mulher cessariam se ele levasse um bode, desses velhos,irascíveis e fedorentos, para conviver com a família durante uma semana. O homem estranhou o conselho, mas o acatou , mesmo achando que corria o risco da mulher matá-lo pela insânia. De fato: ela chegou à beira da apoplexia quando viu o animal e reclamou mais ainda, dia após dia. Mas o marido manteve-se fiel à recomendação do mulá e, somente ao fim dos sete dias, pôs o bicho para fora. Então, a esposa, aliviada, nunca mais reclamou da situação anterior que, se era ruim, era bem melhor do que com o bode na sala. Situação parecida vivemos hoje quanto à questão da redução dos juros bancários, estabelecida em ações do Governo Federal. Quem já atrasou o pagamento de dívida com uma instituição financeira, sabe do que estou falando. Nestas situações, o banco, após fazer-lhe uma série de ameaças ( das quais a menor é enviar seu nome a entidades de proteção ao crédito), propõe um acordo: você só paga metade do débito e,mesmo assim, em várias prestações, sem juros. O que isso significa? Que eles são bonzinhos? Não.Significa o quanto você já fora espoliado pela instituição.O que você pagou,originariamente, de juros , foi tão escorchante, que o banco pode, agora, dar-se ao luxo de abrir mão de 50% da dívida e ainda por cima parcelar o restante. As ações do Governo Federal, visando á redução dos juros bancários, farão apenas com que os bancos retirem o bode da sala, ou seja,os juros altissimos, como já fazem quando renegociam dívidas. Permanecerão os juros altos.Mas a gente sofria tanto com o mal maior, que passa a achar o menor uma benção.A presidente passa por corajosa;os bancos continuam tendo altos lucros e você continuará sonhando com o dia em que seu salário será suficiente para nunca precisar pedir dinheiro emprestado a eles.

Micronto

O ator, amarrado à cruz,prepara-se para o ato final da encenação da morte de Cristo. " Pai,em tuas mãos entrego o meu espírito", gritará , daqui a pouco. Apagar-se-ão todas as luzes, escondendo todos os gestos. Ouvir-se-ão rojões
, que abafarão todos os ruídos. A nova mancha vermelha, de sangue, que surgirá no peito do crucificado, confundir-se-á com o suco de tomate que simula outros sangramentos .O homem, que descobrira ser o ator amante de sua mulher,guardará o revólver e afastar-se-á tranquilamente no meio do público.

A memória de Herzog agradece

Os integrantes da Comissão da Verdade, criada pela presidente Dilma e que toma posse hoje, deixaram bem claro: vão investigar crimes contra os direitos e a dignidade humanos cometidos pelos prepostos da ditadura militar ( 1964-1985). Ou seja: apurar crimes praticados por agentes do Estado, usando recursos do Estado e, presunçosamente, em nome do povo brasileiro. É o que fizeram todas as cerca de 40 comissões semelhantes criadas no mundo todo, inclusive aqui ao lado, na Argentina. Sem essa, como querem as viúvas da ditadura, de se investigar todas as versões do que ocorreu naquela época. O que eles querem? Explicar porque prendiam as pessoas que não pensavam como eles e arrancavam-lhes as unhas com alicates, davam-lhes choques elétricos; arrancavam-lhes a pele; davam-lhes banhos gelados e os deixavam dormir nus sobre cimento frio; estupr
avam-nos ( se mulheres);executavam-nos sumariamente a tiros ou por enforcamento ( e depois diziam que eles tinham se suicidado)ou colocavam-nos em aviões e os jogavam, algemados e dentro de sacos, em alto mar ( e depois diziam que eles tinham desaparecido)? Os brasileiros não querem que eles justifiquem isso, porque isso simplesmente é injustificável.Os brasileiros querem que eles sejam punidos por isso.É pedir muito?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O maior pecado do Jó brasileiro

A Bíblia conta a história de Jó, o homem que foi alvo de disputa entre Deus e o Diabo. Este achava que Jó era temente e fiel a Deus apenas por ser um privilegiado, com uma bela família, riquezas  e saúde. Fosse um sofredor e, sem dúvida, segundo o Diabo, tornar-se-ia blasfemo.

O Jó bíblico: foi-lhe devolvido tudo o que perdeu
Então, o Criador decidiu por Jó à prova. Tirou-lhe, aos poucos, os bens, a família ( os 10 filhos morreram) e a saúde.Mas, diz a Bíblia, Jó, em nenhum momento, maldisse a sorte ou xingou Deus. O Diabo, então,deu-se  por vencido e Deus recompensou Jó, restituindo-lhe, em dobro, tudo o que havia perdido .Além de que, viveu até a idade de 120 anos.

A história do Jó bíblico é bem diferente da do Jó brasileiro, o mecânico pernambucano Marcos Mariano da Silva.

Marcos, o Jó brasileiro: perdeu tudo, inclusive a vida
Em 1976, aos  28 anos, Marcos foi preso, por assassinato. Era inocente. O equívoco ocorreu por ser homônimo do verdadeiro autor do crime. Mesmo assim, condenaram-no a 19 anos de prisão. Um ano depois,  a esposa  divorciou-se  dele e levou os filhos.

Passados seis anos, por acaso, a polícia descobriu o verdadeiro criminoso  e o mecânico foi solto.Tentou retomar a vida. Três anos depois, em uma blitz de rotina da polícia, prenderam-no de novo. A  Justiça não dera baixa em seu processo e ainda era considerado  um assassino procurado.  Ficou preso por mais 13 anos. Neste período, durante  rebelião no presídio, perdeu as duas vistas, por causa  dos gases jogados pela polícia  contra os detentos.

Durante um mutirão judicial, descobriu-se  que Marcos estava preso ilegalmente,  a exemplo de 21 mil outros casos  constatados no Brasil,  apenas  em 2011, pelo Conselho Nacional de Justiça. Foi solto, cego e tuberculoso. Não estava só porque, ainda na prisão, conhecera Lúcia Rodrigues, no dia em  que esta visitava  um  outro preso.Casaram-se e adotaram  uma criança quando ele retomou a liberdade.

Marcos procurou reparação judicial pelo que sofrera. Começou outra via crucis. Anos depois, o Tribunal de Justiça de Pernambuco decidiu que  teria direito a uma pensão mensal de R$ 1,2 mil e uma indenização de R$ 2 milhões. Isso mesmo:o sofrimento de Marcos, para o Judiciário brasileiro, vale, por mês, quatro vezes menos  do que o ex- ministro do Trabalho, Carlos Lupi, recebia como funcionário fantasma da Câmara dos Deputados;  e a indenização é menos de um terço do valor do apartamento comprado pelo ex-ministro da Casa Civil,  Antonio Palocci, com dinheiro supostamente obtido mediante tráfico de influência.E mais: o mecânico só recebeu metade da indenização e, assim mesmo, em 2009.

No dia 22 de novembro último, seu advogado  telefonou-lhe, eufórico. O Egrégio (?) Tribunal de Justiça de Pernambuco liberara o outro R$ 1 milhão da indenização.  Marcos transmitiu a notícia à esposa e foi dormir. Não acordou. Um infarto fulminante  matou-o naquela mesma noite.

Marcos  foi vítima  do mesmo sistema judiciário que não consegue condenar, por exemplo, o ex-governador   Paulo Maluf,  procurado pela Interpol  por  desvio de milhões de reais dos cofres públicos .É o sistema que levou  10 anos para por na cadeia o poderoso jornalista Pimenta das Neves  , assassino  confesso  da ex-namorada, mesmo após  ter sido condenado  pelo Tribunal do Juri (deverá ficar livre em breve, favorecido por  benefícios judiciais, entre eles os relacionados  à idade avançada).

O Jó bíblico, segundo as Escrituras, nunca tinha pecado perante Deus: era um justo. Marcos, o Jó brasileiro, cometeu o maior dos pecados perante a Justiça brasileira:era um pobre.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Jornais impressos versus o resto


Em recente tarde de domingo, o Corintians ganhou importante jogo contra o Atético de Minas Gerais por 2 a 1, com gol de Adriano.Milhões de pessoas souberam disso à noite ,pela TV,  internet, pelo rádio. Pois bem: na segunda-feira, portanto com pelo menos oito horas de atraso, as primeiras páginas dos jornais impressos  anunciavam exatamente isso: Corintians ganha do Atlético com gol de Adriano.

É esse tipo de coisa que pode decretar o rápido  fim do jornal impresso e não a simples concorrência tecnológica.Tenho lido com frequência que o jornal impresso deve  ter textos curtos, boa programação visual,fotos maravilhosas, imagens  altamente  definidas, para sobreviver à nova era da informação. Tudo isso é importante, mas não são armas para concorrência direta com a TV e a internet.

A instantaneidade e o visual não devem ser o campo de batalha do jornalismo impresso para resistir à supremacia  de  outros  tipos de mídia.

A arena ideal dessa guerra, para os impressos, deve ser o conteúdo, não a forma.A rapidez da internet não convive bem com a análise, a reflexão, o aprofundamentro dos fatos.Para isso, ela precisa de mais tempo, tanto quanto os jornais tradicionais.

Não sou sonhador a ponto de achar que os jornais impressos ocuparão, entre o público, os espaços da chamada mídia digital. Mas manterá preferência entre as milhões de pessoas que gostam de conhecer  bem mais  sobre o que acontece à sua volta, além daquela meia dúzia de  linhas do site de notícias; ou daqueles segundos do noticiário televisivo.É gente que não se contenta apenas em saber que o Corintians ganhou do Atlético, com gol de Adriano, mas de como isso ocorreu, as consequências deste acontecimento; as correlações entre este fato e outros etc.

É claro que , para isso, o nível técnico,  intelectual e cultural dos jornalistas dos veículos impressos  deve ser levado em conta. A grande  ameaça à sobrevida desses jornais , a meu ver, ainda é o despreparo dos profissionais que nele atuam. Pelo quê, diga-se a bem da verdade, a maioria não é culpada.